É incrível o quanto que à medida que atendemos mais e mais casos diferentes (mas nem tanto!), passamos a ter um conhecimento maior até do que o paciente está pensando. Nós, terapeutas, do lado de cá, vamos descrevendo para o paciente, sofrendo do lado de lá, o que ele está sentindo, como o cérebro dele se comporta diante do medo e como ele lida com o mundo quando está aprisionado no trauma. Ele pensa que é o único a sentir aquilo tudo, a perder o controle, a não conseguir raciocinar direito e a saber tudo na teoria, mas na prática é um fracasso. Daí enquanto vamos descrevendo como se sente, ele vai se identificando com as características. Então podemos lhe dizer: "Você não é o único!"
Quem viveu algum trauma, pequeno ou grande, e percebe as consequências que este episódio teve na sua vida, não se dá conta que no mundo à sua volta, milhares de pessoas passam pela mesma situação diariamente. Claro que cada um vivencia as situações iguais de forma diferente, mas a impossibilidade de lutar contra aquilo, de mudar o que sente, de agir diferente é igual pra todo mundo. O cérebro é incrível mesmo! E nós conseguimos doutriná-lo durante a terapia de EMDR, durante o período de reprocessamento, em que o terapeuta ajuda o paciente a entrar em contato com suas dores e dessensibilizar tudo, reprocessando a lembrança, que vai perdendo força, cor, presença e importância.
Acho tão maravilhoso quando me relatam que não conseguem mais acessar a lembrança difícil, ou que ela parece menos colorida, parece uma foto estática, o som sumiu, mudou alguma parte da cena etc. São as adaptações que o cérebro faz durante o reprocessamento, para curar a ferida, torná-la desimportante, sem o peso que sempre teve. Sempre explico que o que aconteceu, não pode ser mudado. Mas durante os movimentos bilaterais, o cérebro "cria" uma nova imagem em cima da imagem que realmente aconteceu. A partir desta criação, muitas vezes o paciente perde acesso à imagem original, pois neste momento, não importa se aconteceu ou não, o que importa é o que o cérebro está guardando como memória e é isso que vai valer daqui pra frente. Mesmo que seja algo inventado, uma mentira, digamos assim. Aquela velha frase: Uma mentira que é repetida muitas vezes, se torna uma verdade. Pro cérebro é assim. Se ele acredita naquilo, é a verdade. É só o que importa. Aqui se faz a cura. Para muitos pacientes isso nem é necessário acontecer. Os insights que vêm, são tão reconstruidores do ego e daquilo que estava abalado, que apenas o distanciamento da cena já é suficiente.
Mas lembre-se, um trauma não foi vivido apenas com uma imagem. Todos os nossos sentidos estavam aguçados naquele momento de medo. Visão é a principal, mas às vezes ela nem está tão presente assim, pois pode ter acontecido no escuro e a pessoa não ter podido ver nada, só sentir. E por isso os outros órgãos dos sentidos fazem o papel de guardar também as impressões do momento: o tato (um toque? um tapa? uma carícia? um apertão?), o cheiro (da pessoa? do lugar? da comida?), o som (de passos? de voz ou vozes? do mar? de uma fábrica?) e o gosto (do hálito do outro? de um alimento? uma bebida? outro objeto?). E é por isso que não podemos apenas trabalhar a imagem da cena (se houve uma) sem trabalhar todos estes detalhes captados pelos demais órgãos. O grau de perturbação só vai zerar quando zerarmos todas as más percepções que os 5 sentidos fizeram daquele momento.
Para quem trabalha com EMDR isso é muito claro. Pena que não é tão claro para as demais linhas teóricas, que fazem o paciente ficar falando, falando e falando daquilo que vivenciaram, sem se darem conta que assim ativam apenas a lembrança da imagem, da dor sentida, que muitas vezes precisa ser revivida mil vezes durante meses ou anos de sessões com pouco resultado. Com o EMDR, focamos, atingimos o alvo, limpamos a ferida e permitimos que as emoções cicatrizem sem deixar marcas.
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27 de out. de 2015
5 de fev. de 2014
Os pequenos medos do dia-dia dos pequenos
A maior satisfação que a terapia de reprocessamento EMDR pode trazer a nós terapeutas é ver um medo ir embora em uma hora de sessão. Os pequenos medos do dia-a-dia para um adulto podem ser apenas alguns segundos de angústia, mas para uma criança podem ser momentos de terror, diariamente perturbando, incomodando, dificultando os momentos de prazer, de brincadeiras, de diversão. Criança tem que ser livre, brincar e se divertir, livre de amarras fora e dentro dela. O medo aprisiona, impossibilita a liberdade natural de uma criança.
Ver o meu filho com medo é muito ruim para mim, assim como para qualquer mãe. Nos sentimos com as mãos atadas, pois o medo está dentro da cabecinha da criança e por mais que tentemos argumentar, é difícil pra ela enfrentar. Não é uma bobagem, como os adultos gostam de dizer... O medo de uma criança, quando não sanado, pode vir a incomodar na idade adulta de alguma forma, pode travar o adulto em algum momento de sua vida. Por isso resolver as coisas dentro da cabeça da criança evita esse futuro doloroso e muito mais difícil de limpar, já que ela alimentou o medo por anos...
Hoje pude diminuir um pouco mais as fantasias terroríficas do meu filho, que tinha medo do tal Chucky, o Brinquedo Assassino, só de ouvir falar, sem nunca ter visto uma cena sequer do filme. Pela sua curiosidade, viu uma foto e perguntou sobre a história, que eu acabei contando e me arrependi, pois criou fantasias na sua cabecinha e um medo sem sentido pra mim, já que ele nem vira o filme. Mas depois de alguns dias, resolvi fazer EMDR com ele, já pela segunda vez desde que aprendi a técnica. Só de começarmos a falar no assunto, montando o protocolo, ele disse que o medo já estava diminuindo. Quando terminamos o trabalho, quase uma hora depois, ele suspirou aliviado: "não tenho mais medo, mãe, que bom!"
Essa é a gratificação, o pagamento maior! Uma cabecinha livre de tormentos novamente! Leve para pensar coisas boas, sorrir, brincar e se divertir, como ele mesmo gosta de dizer.
Obrigada aos meus queridos mestres Esly Carvalho e André Monteiro. Como mãe e como profissional, agradeço ter conhecido essa técnica maravilhosa que purifica a vida das pessoas que sofrem.
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